Alcachofras grelhadas com Molho Verde

ALCACHOFRA-BNAlcachofras grelhadas com Molho Verde

Há um país chamado Espanha, no qual está a Comunidade Valenciana. Nesta última há uma região chamada “La Huerta Valenciana”. A alcachofra é a rainha da Huerta Valenciana.

Ingredientes.

. Dos ou mais alcachofras (boas alcachofras valencianas).
. Azeite.
. Sal grosso.
. Salsa.
. Um dente de alho.
. Meio limão
. Um pouco de água. (é prescindível)
. Uma garrafa de vinho branco (é imprescindível)

Primeiro fazemos o molho.

BODEGON-WEBPonha num almofariz uns grãos de sal gordo. Descasque o dente de alho. Sobre uma tábua de cortar, corte-o em pedaços pequenos. Verto o alho picado no almofariz. Pise-o com um pilão. Adicione salsa picada e pise tudo mais uma vez. Verta um pouco de azeite e continue a mexer. Um repuxo mais de azeite e continue a mexer. Esprema dentro o meio limão. Retire as sementes. Mexe mais uma vez e adicione um pouco de água. Isto último é facultativa.

Agora destampe uma garrafa de vinho branco. É a nossa vontade irmanar esta receita com os nossos vizinhos desconhecidos. Escolhemos para a ocasião um bom vinho branco português.  Um Douro branco, por exemplo. Pegue num copo bonito e verta o licor divino. Deguste o vinho e se é bom, beba mais um pouco. Se estivesse cheio de sede, beba o copo inteiro. Mas beba devagar. Não se esqueça, é um bom vinho. Já está feito o molho. E o cozinheiro está contente.

RAMILLETE-ALCACHOFRASDesfolhe as alcachofras, desvista-as como se fossem donzelas e deixe o coração delas desnudado. Sobre a mesma tábua de cortar, corte-as em fatias finas. Faça rápido, Assim nuas, elas oxidam-se cedo.  Uma frigideira ter de estar sobre o fogão a lume forte. Verta um pouco de azeite. Atenção, não é para fritar; é para grelhar. Ponha as fatias de alcachofra. Agora que estão a se dourar, é um momento ótimo para degustar um novo copo de vinho. Lembre-se, beba devagar. Vire as fatias si já estão douradas.  Caso necessário, adicione uma gota de azeite. Se tudo correu bem, deguste mais um copo de vinho. Se não, também. Deite uma pitada de sal. Sal gordo, com certeza. Já está.

Sirva as fatias, uma a uma, sobre um prato bonito. Se lhe trema o pulso  encha o último copo de vinho antes de jantar. Verta o vinho sobre as alcachofras e o molho no seu copo. Talvez não seja assim! Deus meu, já no me lembro. Alguém tem um copo de vinho?

As Palavras mais Usadas nos Fados.

A-FADISTA-3-PARA-WEB-1As Palavras mais Usadas nos Fados.

 

Quando se começa uma nova língua, enceta-se uma relação com ela que pode ser comparada, se os leitores me desculparem, com o inicio de un novo amor. Tudo é fascinação. Portanto, é um momento único de atenção. Os sentidos hão de estar alerta. Depois pode-se amar mais ou menos, mas as primeiras sensações são irrepetíveis. E, sobretudo, a rotina ainda não desfez o primeiro encanto/charme/feitiço.

A-FADISTA-3-PARA-WEB-4Aqueles que acharem que se pode aprofundar numa língua sem interessar-se pela cultura e as formas de vida do país que a entranha, estão errados. É só uma opinião. A música, as músicas são também hoje, ontem e, quem sabe, amanhã, a expressão de um povo, nomeadamente as tradicionais. Sobre tudo as musicas tradicionais. Há poucos países onde uma música tradicional que não está morta, mas antes viva, está em evolução, está a reinvertar-se… Estou a falar do fado. O fado é uma música do sentimento. É a grande música do sentimento urbano, irmanada com as outras músicas urbanas e do sentimento: o tango e o flamenco. Não há dúvida, o tango e o flamenco são mais conhecidos internacionalmente, mas atenção; o tango sabe-se que existe, mas hoje é ignorado pelos argentinos; o flamenco sabe-se que existe, mas os espanhóis não temos sabido perdoar que fosse mimado pela ditadura do velho Franco. Mas parece ser e, de facto, é, que o fado é amado, é ouvido, é cantado pelos portugueses. Talvez não sejam muitos em números absolutos, mas é uma grande percentagem.

A-FADISTA-3-PARA-WEB-3Este espanhol escrevinhador tinha ouvido a grande Amália Rodrigues. O único contacto com o mundo do fado era ela. Ela é o fado, com certeza, mas não é o fado todo. Quando este homem começa com a língua, ao mesmo tempo estreia-se com o fado. Com outros cantores, e, sobretudo outras cantoras. Também Amália, sempre Amália. O fado na voz das mulheres alcança outra dimensão. E o nosso homem vai-se intumescendo de língua e de fado.

A-FADISTA-3-PARA-WEB-2Agora que a primeira fascinação ainda está presente, o escrevinhador de cadernos cibernéticos quer pôr por escrito palavras, as palavras que sacudiram a sua sensibilidade, as palavras mais usadas nos fados. Se não são as mais usadas, pede desculpas, mas, por favor, não digam que está errado. Deixem-no sonhar.

As palavras:

A-FADISTA-3-webFado. Assim sabemos de que estamos a falar.

Fadista. Pessoa que escreve, compõe ou canta fados. Aquele que gosta dos fados. No contexto dos fados é homem ou mulher que vive uma e numa vida de fado. Às vezes identifica-se com o mesmo fado: Porque do fado sou eu.

Lisboa. A Cidade. Mulher, menina, moça e mãe. Tudo acontece em Lisboa. Não há mais cidade que Lisboa. Também está Coimbra, mas Coimbra, menina e moça… Não sei.

Deus. Tudo é por vontade de Deus, nomeadamente, no fado antigo.

Saudade. A saudade aperta, mas ao mesmo tempo é a origem de tudo; sem saudade não havia fado nem fadistas como eu.

Andarilho/andarilha. As criaturas do fado são andarilhas; vão de um fado a outro fado.

Mágoa, magoado. Condição sine qua non para ser fadista.

Dor. Quase o mesmo que mágoa, mas menos romântico.

Lua, noite. Tudo acontece na noite e a lua é a sua testemunha.

Céu, luar. O céu é o grande ecrã onde tudo se reflete. Luar e o milagre que o fadista procura a noite. Milagre do céu.

Loucura. Estado ideal do fadista. Bendita essa loucura de cantar e de sofrer.

Bairro. Para recalcar a origem humilde do fado.

Mar. Onde tudo começou e onde tudo vai morrer.

Gaivota. Se o galo é o animal totémico de Portugal, a gaivota é o animal do fado.

Xale. Uma fadista sem xale, não é ninguém.

Os nomes próprios do fado.

 

Tejo. É o Nilo de Lisboa. Eles não reconhecem, mas é a grande contribuição dos espanhóis ao fado, a Lisboa é a Portugal. Também o Douro, mas essa é outra história.

Alfama. Não tenham medo da fama /De Alfama mal afamada /A fama ás vezes difama /Gente boa, gente honrada… (Ricardo Ribeiro).

Os verbos do fado.

 

Lembrar, esquecer. As duas faces da mesma moeda.

Morrer. Pensamento onipresente do fadista.

Sofrer. Sentimento de auto-complacência.

Olhar. Usa-se, sobretudo, como substantivo.

Bater. O coração bate. É uma ação independente. A vontade não intervém.

As mais destacadas.

 

Peito, janela, coração. Tudo está no peito. O coração está no peito. E o fado é a música das janelas.

 

Manuel de Portugal